Durante muito tempo ouvi-me a pensar, que pena que não sou criativa! Sou claramente analítica e como tal excluía a outra alternativa, como sendo incompatível as 2 características.
Para mim os criativos sempre foram os artistas, os escritores, os que pensavam o futuro e que eram visionários. Os outros limitavam-se a executar.
O terror da folha em branco sempre foi algo que me perseguiu e que me deixava automaticamente sem vontade de experimentar, encontrando formas de adiar ou de passar para outro a responsabilidade de ter uma abordagem inovadora a um determinado tema.
Estas férias tive a oportunidade de desligar completamente do trabalho e de brincar com as minhas filhas e sobrinhos. Foi também a oportunidade de os observar enquanto criavam brincadeiras, as experimentavam, abandonando as mesmas sempre que constatavam que havia uma forma diferente e mais divertida de passar o tempo.
Ao mesmo tempo, lembrei-me de uma conversa que tive, há uns tempos, com um amigo e colega. Numa altura em que precisava da sua ajuda para encontrar uma nova abordagem a um desafio lançado por um cliente, partilhei com ele a minha frustração por não conseguir pensar em nada verdadeiramente inovador. A resposta pareceu-me demasiado simplista: "O problema não é a falta de ideias. É acreditares que não as tens." Com efeito, na altura pensei que para ele era fácil fazer essa afirmação, mas pensando noutros preconceitos consigo perceber que, de facto, as crenças limitativas funcionam muitas vezes como profecias autorrealizáveis. Percebi que, sempre que repetia a mim própria que não era criativa, acabava por nem tentar. Adiava, procurava alguém que pensasse por mim ou refugiava-me naquilo que conhecia melhor: analisar e executar.
As crianças têm mesmo essa capacidade de pensar numa nova brincadeira, experimentá-la e de a ir construindo ao sabor do momento e da vontade. Uma brincadeira que começa como uma loja de aparelhos eletrónicos, termina a ser uma fábrica de computadores com a adaptação de uma caixa de pizza. E depois? Bem, depois transforma-se noutra coisa qualquer.
Ao observá-las, lembrei-me de mim, em miúda, durante muito tempo filha única, a brincar sozinha: eu também usava um rádio antigo como uma central telefónica, ao premir os seus vários botões, era uma acrobata do circo, ao esticar um elástico entre duas cadeiras, ou imaginava-me em NY a olhar na varanda para os telhados de Faro ????: em que momento essa vertente criativa me abandonou?
Talvez a criatividade não me tenha abandonado, mas tenha ficado escondida pelo medo de errar, de fazer má figura, ou de dizer o óbvio. E é engraçado que com as minhas equipas, a primeira coisa que digo é que num brainstorming não há ideias, nem perguntas estúpidas… Então se assumo a possibilidade de os outros poderem experimentar, quando foi que me tornei tão exigente comigo própria? Será que, ao contrário das crianças, me levo demasiado a sério?
As crianças não veem o erro como um fracasso. Veem-no apenas como parte da brincadeira. Se não funciona, tentam outra coisa. Se não gostam, mudam as regras. Se se aborrecem, inventam algo diferente.
Já os adultos (ou pelo menos esta adulta) tendem a exigir que a ideia seja boa antes mesmo de existir. Queremos garantias de sucesso antes de dar o primeiro passo. E é possivelmente aí que bloqueamos a criatividade.
Talvez seja por isso que o descanso desempenha um papel tão importante. Quando estamos absorvidos pelas exigências do dia a dia, pela pressão dos resultados e pelas listas intermináveis de tarefas, a nossa mente entra em modo de execução. Fazemos, resolvemos, avançamos. Mas raramente paramos para explorar.
E uma outra conversa regressou-me à memória. Numa altura em que partilhava com um amigo e antigo chefe a minha dificuldade em estar parada e o sentimento de inutilidade que tantas vezes sentia quando não estava absorvida pela operação ou ocupada a fazer alguma coisa, ouvi: "Não podes ter medo dos momentos de ócio. É no ócio que surgem as ideias. É preciso espaço mental para que elas apareçam."
Durante as brincadeiras com as crianças da família em que não havia qualquer problema em que, em vez da minha sugestão de brincadeira outra fosse a escolhida, as ideias apareciam com mais facilidade.
E, para além disso, tal como ouvi numa palestra, procuro acreditar que a criatividade também se desenvolve. Fazendo um caminho diferente para o trabalho. Observando atentamente as pessoas com quem nos cruzamos e imaginando as histórias que carregam. Viajando para lugares novos ou simplesmente, tal como diz o meu marido: “vamos imaginar que somos turistas em Lisboa e que vemos a cidade pela primeira vez”. Mas, acima de tudo, descansando.
Estou a tentar substituir a convicção de que não sou criativa por uma pergunta: em que condições consigo ser mais criativa? Talvez as ideias não apareçam quando as pressionamos, mas quando lhes damos tempo e espaço. Nas férias, constatei que brincar, observar e descansar podem fazer parte desse espaço. E que a primeira ideia não tem de ser “a” ideia, mas sim uma forma de desbloquear o caminho para a atingir.