O regresso ao trabalho pode ser um recomeço

Durante o verão, muitos profissionais afastam-se da rotina por um período mais longo, pela primeira vez em vários meses. A velocidade abranda, a agenda esvazia-se e, por alguns dias, desaparece o ciclo contínuo de reuniões, e-mails e prazos. Curiosamente, é também neste período que surgem perguntas que dificilmente encontram espaço durante o resto do ano: continuo motivado? Ainda aprendo? O meu trabalho continua alinhado com aquilo que valorizo? Estou onde quero estar ou apenas onde fui ficando? Existe um padrão que se repete todos os anos, regressamos das férias com a sensação de que “este ano vai ser diferente”. Prometemos organizar melhor o tempo, investir mais no nosso desenvolvimento, equilibrar prioridades ou, finalmente, iniciar aquele projeto que temos vindo a adiar. Poucas semanas depois, muitos de nós regressamos exatamente aos mesmos hábitos, às mesmas decisões e às mesmas rotinas. O problema do regresso ao trabalho raramente é o regresso, é regressarmos exatamente à mesma forma de gerir a nossa carreira.

Durante muito tempo associámos as grandes mudanças profissionais a decisões extraordinárias: mudar de empresa, aceitar uma promoção, assumir uma nova função ou iniciar uma formação. Estas decisões continuam a ser importantes, mas a mudança profissional também se constrói através de escolhas muito menos visíveis. O autor James Clear (2018), na sua obra Atomic Habits, popularizou precisamente a ideia de que pequenas mudanças comportamentais, quando repetidas de forma consistente, podem produzir resultados significativos ao longo do tempo e a carreira não é exceção. Muito mais do que as grandes decisões ocasionais, são também os comportamentos que repetimos diariamente que determinam a forma como evoluímos, aprendemos e nos posicionamos no mercado.

A questão é que os hábitos têm uma característica particular: tornam-se automáticos. Charles Duhigg (2012) explica como o cérebro transforma comportamentos repetidos em rotinas, reduzindo o esforço necessário para executar determinadas ações. É um mecanismo fundamental para a eficiência, mas pode tornar-se um obstáculo quando impede o questionamento e a mudança. Continuamos a aceitar as mesmas tarefas, adiamos sistematicamente conversas importantes, deixamos a aprendizagem para “quando houver tempo” e respondemos às exigências do dia sem questionar se continuam alinhadas com os nossos objetivos. O piloto automático é eficiente para executar, mas torna-se perigoso quando começa a decidir por nós!

Esta ideia encontra paralelo na psicologia cognitiva. Daniel Kahneman (2011) distingue dois modos de funcionamento da mente: um rápido, intuitivo e automático, e outro mais lento, analítico e deliberado. O primeiro permite-nos responder eficazmente a muitas das exigências do quotidiano; o segundo ganha particular importância quando precisamos de analisar, questionar e tomar decisões mais complexas.

A gestão consciente da carreira exige precisamente a capacidade de interromper o automatismo e criar espaço para este pensamento mais deliberado. No entanto, a pressão do dia-a-dia faz com que passemos grande parte do tempo a executar, deixando pouco espaço para refletir sobre o rumo que estamos, efetivamente, a construir. É precisamente por isso que setembro pode representar mais do que um simples regresso ao trabalho, pode constituir um momento privilegiado para interromper padrões que deixaram de servir a carreira que queremos construir. Não porque o calendário tenha esse poder, mas porque o regresso oferece uma oportunidade para questionar comportamentos que, ao longo do ano, se tornaram tão habituais que deixámos sequer de os observar. Talvez seja este o momento para fazer perguntas diferentes, não apenas “quais são os meus objetivos?”, mas “quais são os hábitos que estão, todos os dias, a aproximar-me ou a afastar-me desses objetivos?”. Continuo a reservar tempo para aprender? Procuro feedback de forma consistente? Cultivo a minha rede de contactos? Estou a atualizar as minhas competências? Estou a construir opções ou apenas a cumprir aquilo que me é pedido? Ou continuo à espera que a próxima oportunidade apareça por iniciativa de alguém?

Douglas Hall (2004), ao desenvolver o conceito de carreira proteana, antecipou uma realidade hoje particularmente evidente: as carreiras são cada vez menos definidas exclusivamente pelas organizações e mais dependentes da capacidade de cada profissional assumir responsabilidade pelo seu percurso, adaptar-se e orientar as suas decisões a partir dos próprios valores. Essa responsabilidade não se exerce apenas nas grandes decisões, exerce-se também nas pequenas escolhas que, repetidas diariamente, vão construindo ou limitando as possibilidades futuras. É aqui que o regresso ganha uma dimensão particularmente interessante. Recomeçar não significa necessariamente mudar de emprego, de função ou de organização, pode significar, mudar a forma como aprendemos, como gerimos o nosso tempo, como procuramos oportunidades, como construímos relações ou como investimos na nossa empregabilidade. Pequenas alterações de comportamento podem parecer pouco relevantes no imediato, mas acumuladas ao longo de meses ou anos podem alterar significativamente uma trajetória profissional.

No livro Seja o CEO da sua Carreira, defendemos precisamente esta ideia. Gerir uma carreira implica alternar entre dois papéis, há momentos em que somos executores e outros em que precisamos de assumir o papel de CEO. O executor responde às urgências, cumpre objetivos e resolve problemas; o CEO faz algo diferente: levanta a cabeça da operação, questiona a direção, define prioridades e decide o que precisa de mudar. O risco é passarmos demasiado tempo no primeiro papel e esquecermo-nos do segundo. Talvez seja essa uma das oportunidades que setembro nos oferece: não apenas regressar à operação, mas reservar espaço para voltar a pensar na estratégia. Porque estar ocupado não significa necessariamente estar a evoluir, da mesma forma que cumprir objetivos não significa, por si só, estar a construir a carreira que queremos. O regresso ao trabalho pode, por isso, ser muito mais do que o fim das férias. Pode ser um convite à reflexão e um ponto de partida para uma gestão de carreira mais consciente. Uma carreira não muda apenas quando mudamos de empresa, de função ou quando tomamos uma decisão extraordinária. Muda também quando alteramos aquilo que fazemos de forma aparentemente insignificante todos os dias.

No final, talvez a pergunta mais importante deste setembro não seja “como vou regressar ao trabalho?”, mas “quem quero ser quando regressar?”. Porque o verdadeiro recomeço não acontece quando muda o calendário. Acontece quando decidimos deixar de repetir, de forma automática, a carreira que construímos ontem e começamos, de forma consciente, a construir aquela que queremos para amanhã.  Porque uma carreira não muda quando muda o calendário, muda quando mudamos aquilo que escolhemos repetir todos os dias!

Artigo escrito para a Human Resources Portugal.

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