Sou Generalista

Iniciei o meu percurso profissional numa área de especialização, mas cedo percebi que a minha natureza necessitava de lidar com algo menos programado, menos “exato”. Passado pouco tempo, alarguei a minha zona de conforto e saí de Portugal, deparando-me com outro trabalho e outra cultura, onde desenvolvi várias competências que hoje considero preciosas. Mais tarde, perante uma adversidade da vida, tive necessidade de voltar ao meu país, que estava a viver uma profunda crise económica. Nesse momento, em modo “sobrevivência”, decidi empreender num serviço de assistência pessoal destinado a pessoas não residentes no país e na operacionalização das suas necessidades em Portugal: durante 6 anos nunca tive um dia igual ao outro, diverti-me imenso e descobri que conseguia “fazer tudo” (ou quase tudo), mas ainda assim, sentia o peso de não ser especialista em nada…

Ao longo do meu crescimento, na minha cabeça, achava que todas as pessoas deveriam ser especialistas em algo: Mas para ser especialista, não temos de causar impacto? Fazer algo que nos destaque? Recordo que sempre me interessei por diversos temas, sem, porém, me sentir especialista em nada. Sentia que não conseguia destacar-me e isso impactava-me negativamente. Por outro lado, à minha volta sentia que ser generalista era algo menos valorizado, contudo, um dia percebi que a maioria das pessoas que me rodeavam eram especialistas, com conhecimentos profundos em áreas muito específicas, e que por isso, essas opiniões e a forma como eu própria me via, estava enviesada.

Conforme fui amadurecendo e desenvolvendo competências, comecei a entender que se encontrasse propósito no meu trabalho, iria gerar impacto para o serviço, para as pessoas e para o negócio. Hoje, já depois da barreira dos 40, com 20 anos de carreira em áreas tão diversas, desde que me reconheci como um profissional generalista sinto-me mais conectada comigo própria. Essa mudança aconteceu (mesmo sem me aperceber imediatamente) a partir do momento em que iniciei um trabalho onde abordo assuntos diversos todos os dias. Hoje, enquanto Consultora de Executive Search, descobri inúmeras vantagens em ser generalista num mundo de especialistas, sem perder a visão de negócio/mercado, mas acima de tudo das pessoas. Ser generalista requer sensibilidade e interesse em aprofundar-se o suficiente e com eficácia em diversos assuntos, possibilitando a conexão entre esses assuntos de forma produtiva, entendendo causas e efeitos, entendendo os processos, as relações, as estruturas e as organizações. Enquanto generalista sinto-me a aprender todos os dias, tenho vindo a adquirir um pensamento multidisciplinar e uma visão ampla dos impactos entre áreas, mercados e profissionais. Em simultâneo procuro criar soluções para problemas, conectando pontos de vista diversos numa amplitude de visão perante um mercado de trabalho que está em constante evolução.

Recentemente li um livro que aborda justamente isso: a progressão dos generalistas no mercado, assente na teoria de que quanto mais experimentamos, adquirimos uma visão maior das nossas habilidades, além de combinar experiências de várias áreas do conhecimento. Recheado de vários estudos e evidências sobre atletas, artistas, músicos, inventores e cientistas mais bem-sucedidos do mundo, o livro “Versátil - As Vantagens de Ser Generalista num Mundo de Especialistas” de David Epstein, defende que, na maioria dos campos - especialmente aqueles que são complexos e imprevisíveis, os generalistas estão preparados para sobressair. O autor ilustra que, à medida que os especialistas se aprofundam ainda mais, enquanto os computadores dominam mais as habilidades outrora reservadas para seres humanos altamente focados, as pessoas que pensam de forma ampla e adotam experiências e perspetivas diversas irão prosperar cada vez mais, reforçando a ideia de que num mundo complexo, a melhor ferramenta é a flexibilidade. Exemplo: a analogia entre as carreiras e os desportos de alta competição, revelando que os atletas que iniciam a sua especialização mais tarde atingem melhores performances que os atletas que iniciaram a sua carreira focada como um especialista.

Apesar da insistência do mundo corporativo na especialização, os trabalhadores mais propensos a atingir posições de topo são generalistas, não apenas pela sua capacidade inata de se adaptar a novos locais de trabalho, cargos ou diferentes culturas, mas sobretudo pelo facto dos generalistas se conseguirem facilmente adaptar a um “meio” onde cada vez mais se torna valioso conhecer “um pouco sobre muito”.

Não pretendo aqui influir que o “team generalistas” vence o “team especialistas”. É desafiante constatar que alguns perfis que iniciaram a carreira como especialistas são hoje melhores generalistas, assim como o oposto: ser generalista pode ter ajudado a ser um especialista melhor.  Num mundo em permanente mudança, acredito que todas as instituições precisam dos dois perfis nas suas equipas para que o negócio seja bem-sucedido, pois generalistas e especialistas são profissionais complementares.

Por Alexandra Patrocínio 

Referências:
David Epstein: Versátil - As Vantagens de Ser Generalista num Mundo de Especialistas
Michael Hecht: Generalists Evolve Into Specialists on Vimeo
Generalist vs Specialist – Guide to Purposeful Success

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